As pessoas disléxicas costumam ter o lado direito do cérebro, relacionado às atividades criativas, maior que o esquerdo. Isso faz com que geralmente procurem atuar em profissões liberais e artísticas. Com inteligência acima da média, as pessoas com este distúrbio de aprendizagem representam de 5% a 17% da população mundial.
Entenda a dislexia, distúrbio que atinge milhões de pessoas
Dificuldade para discernir letras, sílabas, palavras e seus respectivos sons, porém com um QI (quociente de inteligência) bastante acima da média. Estas são as principais características das pessoas afetadas pela dislexia, um distúrbio de aprendizagem que atinge de 5% a 17% da população mundial, segundo a ABD (Associação Brasileira de Dislexia).
O transtorno é estudado há mais de cem anos por cientistas de áreas como a fonoaudiologia e a neurologia. Escrita Na realidade, a dislexia prejudica principalmente a linguagem, mas acaba acarretando problemas em outras áreas. Isso ocorre porque na grande maioria das matérias é necessário, em algum momento, escrever. "Por isso é preciso que essas crianças sejam avaliadas e recebam tratamento, principalmente por causa da auto-estima. Em razão desse problema, todo mundo acha que ele [o disléxico] é burro, preguiçoso, o que não é verdade", afirma Maria Ângela Nico, fonoaudióloga e coordenadora técnica e científica da ABD.
O principal obstáculo para o disléxico é fazer a relação entre os sons e sua representação visual, por meio das letras. Por isso, as crianças que possuem esse distúrbio enfrentam muitas dificuldades de alfabetização. É somente neste período que o diagnóstico se torna possível. A criança disléxica pode até ter algum retardamento no aprendizado da fala, mas os sinais mais claros aparecem mesmo no início do período escolar. Entre os principais sintomas estão a dificuldade na sistematização de leitura e escrita, o não reconhecimento de rimas, além de demonstrarem pouca atenção às aulas. É recorrente também a falta de organização, em razão de problemas na memória imediata.
O disléxico tem dificuldade em se posicionar no tempo - discernir o que vem antes e depois. Acima da média Entretanto, é comum que a dislexia venha acompanhada de uma inteligência acima da média, havendo inclusive exemplos de superdotados disléxicos. É o caso de José Rigoni Júnior, 26, que descobriu possuir o distúrbio aos 18 anos, quando já era aluno da USP (Universidade de São Paulo). Ele freqüentava a universidade desde os 16 anos, como ouvinte do curso de engenharia e integrante de um grupo de pesquisas da Escola Politécnica, do qual faz parte até hoje. Aos 20 anos de idade, Rigoni passou no vestibular para geografia, no qual se formou. Ele também cursou letras. Rigoni conta que sempre teve dificuldades na escola, chegando a ser reprovado cinco vezes, apesar de entender todo o conteúdo transmitido pelos professores. O problema é que ele não conseguia expressar esse conteúdo por meio da escrita. "A questão é a interpretação do texto, formalizar esse conhecimento, colocar no papel o que eu tinha aprendido. Mas tinha muita facilidade no entendimento oralizado, entendia tudo muito rápido", afirma o hoje professor de geografia da USP. Rigoni conseguiu recuperar o tempo perdido no ensino fundamental por meio de uma lei federal que permite que alunos especiais como ele sejam avançados de série. Na faculdade, ele fazia provas no computador, com o auxílio de corretor ortográfico, ou respondia às perguntas oralmente. Ainda hoje, apesar de ter feito tratamento durante um ano e meio, o professor diz ter dificuldades na escrita. "Quando escrevo na lousa cometo muitos erros, mas não tem problema. Os alunos estão a par de tudo e me avisam quando escrevo algo errado", afirma.
Líderes
Em casos mais leves, o paciente pode nunca perceber que possui o distúrbio. O empresário Cláudio Teixeira, 44, por exemplo, descobriu ser disléxico apenas aos 36 anos de idade. Ele sempre teve dificuldades no período escolar, tanto que mudou de colégio oito vezes durante o Ensino Fundamental e Médio. "É algo desgastante, influencia muito na vontade de estudar. As letras pulam, mexem de lugar, não dá para aprender. Mas ao mesmo tempo te dá uma garra, uma força para gerenciar, liderar", afirma. Conforme apontam as pesquisas, essa característica empreendera de que o empresário fala é comum à maioria dos disléxicos. Uma das hipóteses apontadas para isso é a configuração cerebral dessas pessoas. Elas costumam ter o lado direito do cérebro, relacionado às atividades criativas, maior que o esquerdo. Isso faz com que eles geralmente procurem atuar em profissões liberais e artísticas.
Essa teoria pode ser comprovada na prática, dada a quantidade de artistas, empresários e comunicadores famosos que são disléxicos. Figuram na lista pessoas como a escritora Agatha Christie, o ator Tom Cruise e o cientista Charles Darwin, autor da teoria da evolução.
Extraído da Folha Online (outubro/2007)
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u334707.shtml